Estamos Dormindo ou Estamos Acordados? (Osho)

12. 05. 29
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Texto extraído do livro "Consciência – A Chave para Viver em Equilíbrio" – excertos das obras selecionadas de OSHO – Cultrix Editora.

" O estado desperto é o caminho para a vida.

O tolo dorme como se já estivesse morto,

mas o mestre está desperto e vive para sempre.

Ele está atento. Está lúcido.

Como ele é feliz! Pois vê que o estado desperto é a vida.

Como ele é feliz, seguindo o caminho dos que despertaram.

Com grande perseverança ele medita, em busca de liberdade e felicidade."

__ extraído de Dhammapada, de Gautama, o Buda

Continuamos a viver totalmente alheios ao que está acontecendo à nossa volta. Admito que passamos a ser muito eficientes em algumas coisas. Com respeito às coisas que fazemos, passamos a demonstrar tamanha eficiência que não precisamos mais prestar atenção nelas. A coisa ficou mecânica, automática; vivemos como robôs. Não somos homens ainda; somos máquinas.

Era isso que George Gurdjieff costumava dizer muitas e muitas vezes: o homem, da forma que existe, é uma máquina. Gurdjieff ofendeu muitas pessoas, porque ninguém gosta de ser chamado de máquina. As máquinas gostam de ser chamadas de deuses; aí ficam contentes, cheias de si. Gurdjieff costumava chamar as pessoas de máquinas e ele estava certo. Se prestar atenção em você mesmo, vai perceber o quanto se comporta mecanicamente.

O psicólogo russo Pavlov e o psicólogo norte-americano Skinner estão 99,9% certos com respeito ao homem: eles acham que o homem é uma belíssima máquina e ponto final. Não existe nenhuma alma nele. Eu disse que eles estão 99,9% certos; só deixam de estar completamente certos por uma margem muito pequena. Essa margem pequena são os budas, os que já despertaram. Mas os psicólogos estão perdoados, afinal, Pavlov nunca cruzou com nenhum Buda – cruzou, isto sim, com milhões de pessoas como você.

Skinner estudava os homens e os ratos e não achou nenhuma diferença entre eles. Os ratos são seres simples, só isso; o homem é ligeiramente mais complicado. O homem é uma máquina extremamente sofisticada, os ratos são máquinas simples. É mais fácil estudar os ratos; é por isso que os psicólogos continuam estudando os ratos. Estudam os ratos e chegam a conclusões a respeito dos homens – e as conclusões a que chegam estão quase certas. Eu disse "quase", repare, pois a décima parte de 1% é o fenômeno mais importante que já aconteceu. Buda, Jesus, Maomé – essas poucas pessoas despertas são o verdadeiro homem. Mas onde Skinner vai encontrar um Buda?

Onde B.F. Skinner iria encontrar um Buda? E mesmo que ele encontrasse, suas idéias preconcebidas não deixariam que ele o enxergasse. Skinner continuaria enxergando só os seus ratos. Não conseguiria entender nada que os ratos não soubessem fazer. No entanto, ratos não meditam, não se tornam iluminados. E, segundo o conceito de Skinner, o homem é só uma forma ampliada de rato. Ainda assim repito que ele está certo com respeito à grande maioria das pessoas; suas conclusões não estão erradas, e os budas concordariam com ele no que diz respeito à chamada humanidade normal. A humanidade normal está profundamente adormecida. Nem os animais estão tão adormecidos.

Você já viu um cervo na floresta? O quanto ele parece alerta, o quanto parece atento ao andar? Já viu um pássaro pousado numa árvore? Como ele observa com um ar inteligente o que acontece à volta dele? Você caminha na direção do pássaro – até uma certa distância ele permite. Além disso, um passo a mais, e ele voa para longe. O pássaro demonstra que está bem alerta com relação ao seu território. Se alguém invadir esse território, isso representa perigo.

Se olhar em volta, você vai ficar surpreso: o homem parece o animal mais adormecido sobre a terra.

Uma mulher comprou um papagaio no leilão de móveis de um bordel elegante e deixou a gaiola coberta por duas semanas inteiras, esperando que ele esquecesse seu vocabulário profano. Quando a gaiola finalmente foi descoberta, o papagaio olhou em volta e comentou: "Currupaco! Casa nova! Dona nova!"

Quando as filhas da mulher chegaram, ele acrescentou: "Currupaco! Garotas novas!" Quando o marido da mulher chegou à noite, o papagaio gritou "Currupaco! Currupaco! Os mesmos clientes de sempre!"

O homem está num estado de total prostração. Na verdade, é esse o significado da parábola cristã da queda de Adão, sua expulsão do paraíso. Por que Adão e Eva foram expulsos do paraíso? Foram expulsos porque comeram o fruto do conhecimento. Foram expulsos porque tinham se tornado mentes e perdido a consciência. Quando se torna uma mente, você perde a consciência – mente significa sono, mente significa barulho, mente significa mecanicidade. Se você se torna uma mente, perde a consciência.

Por isso, tudo o que você tem a fazer é ficar novamente consciente e perder a mente. Você tem que erradicar do seu sistema tudo o que acumulou sob o título de conhecimento. É o conhecimento que mantém você dormindo; por isso, quanto mais conhecimento uma pessoa tem, mais adormecida ela está.

É isso o que também tenho observado. Aldeões inocentes estão muito mais alertas e despertos de que os doutores nas universidades e os pânditas nos templos. Os pânditas não são nada mais que papagaios; os acadêmicos das universidades estão cheios de nada mais que estrume de vaca sagrada, cheios de bobagens sem sentido – só mentes e nenhuma consciência.

As pessoas que trabalham em meio à natureza – fazendeiros, jardineiros, lenhadores, carpinteiros, pintores – estão muito mais alertas do que pessoas que ocupam cargos de reitor ou vice-reitor, nas universidades. Pois quando você trabalha em meio à natureza, a natureza está alerta. As árvores estão alertas; de um jeito diferente, mas estão extremamente alertas.

Já existem provas cientificas de que elas estão conscientes. Se o lenhador se aproxima de uma árvore com um machado na mão e com a intenção de cortá-la, todas as árvores que o vêem começam a tremer. Agora a ciência já tem provas disso; não estou falando de uma forma poética, estou falando de ciência. Agora existem instrumentos que mostram se a árvore está feliz ou infeliz, amedrontada ou tranqüila, triste ou extasiante. Quando o lenhador se aproxima, todas as árvores que constatam sua presença começam a tremer. Elas se dão conta de que a morte está próxima. E o lenhador ainda nem chegou a cortar uma árvore – só está se aproximando...

E mais uma coisa, bem mais estranha – se o lenhador estiver simplesmente passando, sem nenhuma intenção de cortar uma árvore, as árvores não ficam com medo. trata-se do mesmo lenhador, com o mesmo machado na mão. Parece que a intenção que ele tem de cortar é o que afeta as árvores. Isso significa que a intenção dele é comprometida; isso significa que a vibração em si está sendo decodificada pelas árvores.

E um outro fato significativo tem sido observado pela ciência: se você entrar numa floresta e matar um animal, não é só o reino animal em volta de você que começará a tremer, mas as árvores também. Se alguém mata um veado, todos os veados nas proximidades que sentem a vibração do assassino ficam tristes; um grande tremor agita todos eles. De repente ficam todos com medo sem nenhuma razão em particular. Eles podem nem ter visto a pessoa matando o veado, mas de alguma forma, de um jeito sutil, são afetados – instintivamente, intuitivamente. Mas os veados não são os únicos afetados – as árvores são afetadas, os papagaios são afetados, os tigres são afetados, as águias são afetadas, as folhas de grama são afetadas. O assassinato aconteceu, a destruição aconteceu, a morte aconteceu – tudo o que está em volta é afetado. O homem parece ser a criatura mais mergulhada no sono...

Os sutras de Buda têm de ser tema de meditação profunda, assimilados e seguidos; ele diz: O estado desperto é o caminho para a vida.

Você está vivo na mesma medida em que está acordado. A consciência é a diferença entre a vida e a morte. Você não está vivo só porque está respirando, não está vivo só porque seu coração está batendo. Do ponto de vista fisiológico, você pode ser mantido vivo num hospital, sem nenhuma consciência. Seu coração continuará batendo e você continuará a respirar. Você poderá ficar ligado a uma máquina que o manterá vivo durante anos – respirando, com o coração batendo e o sangue circulando. Existem agora mesmo muitas pessoas em países adiantados do mundo todo que estão apenas vegetando em hospitais, porque uma tecnologia avançada tornou possível que sua morte fosse adiada indefinidamente – durante anos você pode ser mantido vivo. Se isso for considerado vida, então você pode ser mantido vivo. Mas isso não é vida, em absoluto. Vegetar, pura e simplesmente, não é viver.

Os budas têm uma definição diferente. A definição deles consiste na consciência. Eles não dizem que você está vivo porque pode respirar, não dizem que está vivo porque seu sangue está circulando; dizem que está vivo se você está desperto. Portanto, com exceção dos que despertaram, ninguém está realmente vivo. Você é um corpo – andando, falando, fazendo coisas – você é um robô.

O estado desperto é o caminho para a vida, diz Buda. Fique mais acordado e você ficará mais vivo. E vida é Deus – não existe outro Deus. Por isso Buda fala da vida e da consciência. A vida é o objetivo e a consciência é a metodologia, a técnica para chegar lá.

O tolo dorme...

E estão todos dormindo, portanto, são todos tolos. Não se sinta ofendido. É preciso expor os fatos da maneira como são. Você "vive" dormindo; é por isso que continua andando aos tropeções, fazendo coisas que não quer fazer. Você continua fazendo coisas que decidiu não fazer. Continua fazendo coisas que tem consciência de que não estão certas e não faz as coisas que sabe que estão certas.

Como isso é possível? Porque você não consegue andar em linha reta? Por que continua entrando em becos sem saída? Por que continua se desviando de seu curso?

Pediram a um jovem, dono de uma bela voz, que atuasse numa das cenas de uma peça, contudo, ele se desculpou, dizendo que sempre ficava embaraçado em tais circunstâncias. Então lhe garantiram que seu papel seria muito simples; ele só teria de dizer "Vim lhe roubar um beijo e voltar para a batalha..." e então sair de cena.

No dia da peça ele já entrou em cena extremamente constrangido com as calças justas até o joelho, de estilo colonial, que o obrigaram a vestir na última hora. O constrangimento virou nervosismo quando ele viu a bela heroína descansando num banco de jardim, à espera dele, usando apenas uma camisola branca. O jovem então limpou a garganta e anunciou: – Vim lhe roubar um queijo... Não! Roubar um beijo!... E voltar para catá-la... Quer dizer, para a batalha! Ah, que se dane, nunca quis mesmo participar dessa peça maldita...!

É isso o que acontece. Observe a sua vida – tudo o que você continua fazendo é tão confuso, mas tão confuso! Você não tem nenhuma lucidez, não tem nenhuma percepção das coisas. Você não está alerta. Não consegue ver, não consegue enxergar – certamente você tem ouvidos, então é capaz de ouvir, mas não há ninguém aí dentro para entender. Certamente você tem olhos e é capaz de ver, mas não há ninguém aí dentro de você. Então seus olhos continuam enxergando, seus ouvidos ouvindo, mas nada é compreendido. E você tropeça a cada passo, comete um erro a cada passo. E ainda continua achando que está consciente.

Esqueça essa idéia de uma vez por todas. Esquecê-la é um grande avanço, um grande passo, pois, quando esquecer a idéia de que está consciente, você começará a procurar maneiras e meios de ficar consciente. Então a primeira coisa que tem de ficar gravada dentro de você é que você está dormindo, está totalmente mergulhado no sono.

A psicologia moderna descobriu algumas coisas importantes; embora elas tenham sido descobertas apenas do ponto de vista intelectual, já é um bom começo. Se foram descobertas intelectualmente, então, mais cedo ou mais tarde também serão constatadas por meio da experiência.

Freud é um grande pioneiro; claro que não é um Buda, mas ainda assim é um homem de grande valor, pois foi o primeiro a fazer com que a maior parte da humanidade aceitasse a idéia de que o homem tem um grande inconsciente oculto dentro dele. A mente consciente é só a décima parte e a mente inconsciente é nove vezes maior do que o consciente.

Seu discípulo Jung foi um pouco mais longe, um pouquinho mais, e descobriu o inconsciente coletivo. Por trás do inconsciente individual existe um inconsciente coletivo. Agora é preciso que alguém descubra mais uma coisa, que existe, e eu espero que mais cedo ou mais tarde as investigações em curso no campo da psicologia venham a descobri-la – estou falando do inconsciente cósmico. Os budas já falaram sobre ele.

Podemos então falar da mente consciente – uma coisinha muito frágil, uma parte muito pequena do seu ser. Por trás do consciente está a mente subconsciente – fraca, você pode ouvir seus sussurros, mas não consegue decifrá-la. Ela está sempre ali, atrás da mente consciente, influenciando-a secretamente. Em terceiro lugar está a mente inconsciente, com que você se depara só durante os sonhos ou quando toma drogas. E, em seguida, a mente inconsciente coletiva. Você só a descobre quando faz uma investigação profunda na sua mente inconsciente; aí você encontra o inconsciente coletivo. E, se for além, mais fundo ainda, você descobre o inconsciente cósmico. O inconsciente cósmico é a natureza. O inconsciente cósmico é o conjunto da humanidade que viveu até hoje; ele faz parte de você. O inconsciente é o seu inconsciente individual que a sociedade reprimiu em você, que não deixaram que se expressasse. Por isso ele chega pela porta dos fundos, na calada da noite, em seus sonhos.

E a mente consciente... Eu a chamarei de a suposta mente consciente, porque ela é apenas uma suposição. Ela é tão minúscula, um bruxuleio apenas, mas mesmo assim é importante, pois contém a semente; as sementes são sempre pequenas. A mente consciente tem um grande potencial. Uma dimensão totalmente nova agora está se abrindo. Assim como Freud abriu a dimensão que está abaixo da consciência, Sri Aurobindo abriu a que está acima dela. Freud e Sri Aurobindo são as pessoas mais importantes dessa era. Ambos são intelectuais, nenhum deles é uma pessoa desperta, mas ambos prestaram um grande serviço a humanidade. Do ponto de vista intelectual, eles nos fizeram tomar consciência de que não somos tão pequenos quanto parecemos na superfície, e de que essa superfície oculta grandes alturas e grandes profundezas.

Freud explorou as profundezas. Sri Aurobindo tentou divisar as alturas. Acima da nossa suposta mente consciente está a verdadeira mente consciente; essa alcançamos apenas por meio da meditação. Quando a sua mente consciente comum se soma à meditação, quando a mente consciente comum é acrescida à meditação, ela se torna a verdadeira mente consciente.

Além da mente consciente verdadeira esta a mente superconsciente. Quando está meditando, você tem apenas lampejos. Meditar é tatear no escuro. Tudo bem, algumas janelas se abrem, mas você volta a retroceder várias e várias vezes. Mente subconsciente significa samadhi – você atingiu a perceptividade cristalina, conseguiu uma consciência integrada. Agora não há como retroceder – ela já é sua. Nem durante o sono ela deixa você.

Além do superconsciente está o superconsciente coletivo; o superconsciente coletivo é o que conhecemos como "deus" nas religiões. E além do superconsciente coletivo está o superconsciente cósmico, que chega a transcender os deuses. Buda o chama de nirvana, Mahavira o chama de kaivalya, os místicos hindus o chamam de moksha; você pode chamá-lo de verdade.

Esses são os nove estados de seu ser. Você agora se limita a viver num cantinho do seu ser – a minúscula mente consciente. É como alguém que tivesse um palácio, se esquecesse dele e passasse a viver numa choça – achando que isso é tudo o que tem.

Freud e Sri Aurobindo são grandes figuras da intelectualidade, são pioneiros, filósofos, mas todo o trabalho deles não passa de uma grande conjectura. Em vez de ensinarem os estudantes a filosofia de Bertrand Russell, de Alfred North Whitehead, de Martin Heidegger, de Jean-Paul Sartre, seria muito melhor se as pessoas aprendessem mais sobre Sri Aurobindo, pois ele é o maior filosofo dessa era. Mas ele é totalmente negligenciado, ignorado pelo mundo acadêmico. A razão disso é que ler Sri Aurobindo faz com que você perceba que não tem consciência de nada. E nem mesmo Aurobindo é um Buda ainda, embora tenha criado essa situação tão embaraçosa para você. Se ele está mesmo certo, então o que você está fazendo? Então porque não está explorando os cumes do seu ser?

Freud foi aceito com muita resistência, mas finalmente acabou conseguindo. Sri Aurobindo nem mesmo foi aceito ainda. Na verdade, ainda não existe sequer oposição a Aurobindo; ele é simplesmente ignorado. E a razão disso é clara. Freud fala de algo que está abaixo de você – que não é embaraçoso; você pode se sentir bem sabendo que está consciente e que, abaixo da sua consciência, existe um subconsciente e um inconsciente e um inconsciente coletivo. Mas todos esses estados estão abaixo de você; você está no topo; pode se sentir muito bem. Mas, se estudar Sri Aurobindo, você vai ficar constrangido, ofendido, porque existem estados superiores ao seu – e o ego do ser humano nunca quer aceitar que exista algo superior a ele. O ser humano quer acreditar que esteja no pináculo superior, no clímax, no Gourishankar, no Everest – que não existe nada superior a ele...

E isso parece muito bom – negando seu próprio reino, negando suas próprias alturas, você se sente muito bem. Olhe que estupidez!

Buda está certo. Ele diz: O tolo dorme como se já estivesse morto, mas o mestre está desperto e vive para sempre.

O estado desperto é eterno, não conhece a morte. Só a inconsciência morre. Portanto, se continua inconsciente, adormecido, você terá de morrer de novo. Se você quer dar um fim a todo esse sofrimento de morrer e nascer, nascer e morrer, se quer dar um fim na roda de nascimento e morte, terá de ficar absolutamente alerta. Você terá de alçar alturas cada vez maiores da consciência.

E essas coisas não vão ser aceitas a nível intelectual; elas têm de se tornar experiências, têm de se tornar existenciais. Não estou lhe dizendo que você se convencerá disso do ponto de vista filosófico, porque a convicção filosófica não leva a nada, não dá resultado nenhum. O verdadeiro resultado só vem quando você faz um grande esforço para despertar.

Mas esses mapas intelectuais podem criar um desejo, uma ânsia em você; podem fazê-lo tomar consciência do seu potencial, do possível; podem fazê-lo perceber que você não é o que parece ser – você é muito mais do que isso.

O tolo dorme como se já estivesse morto, mas o mestre está desperto e vive para sempre.

Ele está atento. Está lúcido.

Afirmações simples e belas. A verdade é sempre simples e sempre bela. Basta ver a simplicidade dessas duas sentenças... mas como são profundas! Mundos, dentro de mundos, mundos infinitos – Ele está atento. Está lúcido.

A única coisa que é preciso aprender é a atenção plena. Fique atento! Atente para cada gesto que faz. Atente para todo pensamento que lhe cruze a mente. Atente para cada desejo que tome conta de você. Fique atento até aos menores gestos – enquanto anda, fala, come ou toma banho. Não pare de observar tudo. Faça com que qualquer coisa seja uma oportunidade de observar.

Não coma mecanicamente, não vá simplesmente se entupindo de comida – fique sempre atento ao que faz. Mastigue bem e preste atenção... e você ficará surpreso ao ver quanta coisa deixou de perceber até agora, pois cada mordida lhe dará uma satisfação tremenda. Se você comer prestando atenção ao que faz, a comida ficará mais saborosa. Mesmo uma comida comum parecerá mais gostosa se você estiver atento; mas, se não estiver, você pode comer o prato mais delicioso do mundo e não sentirá gosto de nada, pois não haverá ninguém ali para saborear. Você vai simplesmente se empanturrar. Coma devagar, com atenção; cada bocado tem de ser bem mastigado e saboreado.

Cheire, toque, sinta a brisa e os raios do sol. Olhe a lua e se torne simplesmente um lago silencioso de atenção total; e a lua se refletirá em você, cheia de beleza.

Viva a vida prestando atenção a tudo à sua volta. Mais de uma vez você perceberá que acabou se distraindo. Não se sinta a última das criaturas por causa disso; é natural. Nos milhões de vida que viveu, você nunca tentou prestar atenção a tudo; portanto, é natural que viva se esquecendo de fazer isso. Mas, assim que lembrar, volte a ficar atento.

Lembre-se de uma coisa: quando se der conta de que esqueceu de prestar atenção, não se recrimine; do contrário, estará perdendo tempo. Não se lamente dizendo "Esqueci de novo!" Não comece a achar que está cometendo um pecado, nem se condene, pois não vale a pena. Nunca se arrependa do que fez! Viva o presente. Esqueceu-se, e daí? É natural – isso virou um hábito e os hábitos custam a desaparecer. E esses não são hábitos adquiridos ao longo de uma vida; são hábitos que você cultivou por milhões de vidas. Portanto, se conseguir ficar atento por alguns minutos, sinta-se grato por isso. Mesmo esses poucos minutos já são mais do que se poderia esperar.

Ele está atento. Está lúcido.

Quando você fica atento, uma lucidez aflora. Por que a atenção faz com que a lucidez aflore? Porque quanto mais atento você fica menos pressa tem. Você fica mais gracioso. Quando está atento, sua mente tumultuada tagarela menos, pois a energia usada para matraquear é canalizada e se transforma em atenção – a energia é a mesma! Agora uma quantidade cada vez maior de energia será transformada em atenção e a mente não receberá o mesmo suprimento de energia. Os pensamentos começarão a ficar mais esparsos, começarão a "perder peso". Pouco a pouco, começarão a definhar. E, quando isso acontece, a lucidez aparece. A sua mente vira um espelho.

Como ele é feliz! E quando a pessoa é lúcida, ela é bem-aventurada. A mente tumultuada é a maior causa do sofrimento; a clareza mental é a base da bem-aventurança. Como ele é feliz! Pois vê que o estado desperto é vida!

Agora ele sabe que a morte não existe, pois esse estado de despertar não pode ser destruído. Quando a morte vier, você também estará atento a ela. Você morrerá atento – a atenção não morrerá. Seu corpo vai desaparecer, virar pó, mas sua atenção continuará; fará parte da totalidade cósmica. Virará consciência cósmica.

Nesses momentos, os videntes dos Upanixades declaram – Aham brahmasmi – Eu sou a consciência cósmica. – É nesse espaço que al-Hillaj Mansoor anuncia: – Ana'l haq! – Eu sou a verdade! – Essas são as alturas, seu direito nato. Se você não reivindicou esse direito ainda, isso é responsabilidade sua e de mais ninguém.

Como ele é feliz! Pois vê que o estado desperto é vida.

Como ele é feliz, seguindo o caminho dos que acordaram.

Com grande perseverança ele medita, em busca de liberdade e felicidade.

A menos que você dê tudo de si para despertar, isso não vai acontecer.

Não adianta se esforçar só um pouco. Não dá para você ser só mais ou menos, não dá para ficar em banho-maria. Isso não vai dar em nada. Água morna não chega em ponto de fervura nem evapora. O mesmo acontece quando você se esforça apenas um pouco: não consegue nada.

A transformação só acontece quando você investe toda a sua energia nisso. Quando chega ao ponto de fervura, você evapora e a transformação alquímica acontece. Você começa a subir. Nunca percebeu? – a água flui para baixo; o vapor sobe. Aqui acontece o mesmo: o inconsciente desce para as profundezas, a consciência se eleva.

Só mais uma coisa: para cima é o mesmo que para dentro e para baixo é o mesmo que para fora. A consciência vai para dentro, a inconsciência vai para fora. O inconsciente faz com que você se interesse pelos outros – pelas coisas, pelas pessoas, mas sempre pelo que está fora. O inconsciente mantém você na mais completa escuridão; seus olhos continuam focalizados nos outros. Ele cria um tipo de exterioridade, faz com que você fique extrovertido. A consciência cria interioridade. Faz com que fique introvertido; leva você para dentro, cada vez mais fundo.

E cada vez mais fundo também significa cada vez mais alto; isso acontece simultaneamente, assim como a árvore cresce. Você vê a árvore crescendo, mas não vê as raízes se espalhando por baixo da terra. Mas primeiro as raízes têm de se espalhar pelo subterrâneo para que a árvore possa crescer. Se a árvore quiser estender seus galhos na direção do céu, ela terá de fincar raízes muito profundas, quanto mais fundo melhor. As árvores crescem em duas direções ao mesmo tempo. A consciência se desenvolve exatamente da mesma forma, para cima e para baixo, fincando raízes dentro de você.