DIREITO SISTÊMICO: As leis sistêmicas que regem as crianças colocadas em famílias substitutas. Autor: Dr Sami Storch – juiz de direito

14. 07. 14
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Representantes da mãe de criação e da filha se abraçam durante a constelação.

Quando os pais adotivos dão aos pais biológicos um lugar no seu coração, recebem a benção e o amor deles para que possam criar os filhos. Consequentemente, as crianças, ao sentirem que os pais adotivos respeitam e consideram a presença dos pais biológicos em sua alma, se sentem mais amadas e aumentam a confiança nos pais adotivos. Essa foi uma das importantes dinâmicas que vieram à tona durante a 3ª Vivência de Constelações Familiares na Comarca de Amargosa (a 2ª da Vara de Infância e Juventude), com o tema “ADOLESCENTES E ATOS INFRACIONAIS – A DESCOBERTA DOS VÍNCULOS SISTÊMICOS FAMILIARES”, realizada em Amargosa

no dia 10 de julho de 2014. 

 

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Como temos feito nesses eventos, realizamos uma palestra e uma meditação, em que todos tiveram oportunidade de compreender melhor como os comportamentos agressivos de crianças e adolescentes e as dificuldades que a família tem de controlá-los podem estar relacionados, sistemicamente, a fatos traumáticos e destinos difíceis ocorridos no passado familiar, mesmo que em gerações anteriores – mortes precoces ou violentas, suicídios, doenças graves, crimes, abortos, adoções, etc. Em seguida, fizemos duas constelações, ambas relativas a crianças criadas em famílias substitutas (em processos de adoção ou guarda). Em ambos os casos, viu-se o forte amor da mãe de criação pelas crianças, e destas por aquela, ao mesmo tempo em que havia uma sensação de insegurança delas de que o reconhecimento ou a aproximação dos pais biológicos ou de membros da família originária, ainda que somente por falar ou lembrar deles, pudessem afastar as crianças da mãe de criação.

 

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Contudo, nas constelações, experimentamos pedir à representante da mãe de criação que olhasse para os representantes dos pais biológicos e de outros membros da família biológica, e que dissesse a eles: “agora eu vejo vocês; sinto muito pelas dificuldades que têm/tiveram; e, em sua homenagem, cuido de seus filhos e os amo como meus”. Para os representantes dos pais biológicos (mesmo quando as pessoas representadas já morreram), essa frase tem o efeito de fazer com que se sintam considerados e, consequentemente, confiem na mãe de criação e deem a ela sua bênção para criar seus filhos. Estes também se sentem mais amados, quando veem que sua verdadeira origem é vista e honrada. E os pais adotivos se sentem fortalecidos para a missão que receberam, quando o fazem em nome dos pais biológicos e destes recebem a benção. O que pode ser observado é que essa dinâmica ocorre independentemente do que os pais biológicos tenham feito e de como as crianças tenham sido entregues à família substituta – se os pais morreram, se entregaram os filhos à adoção voluntariamente, se foram destituídos do poder familiar por maus tratos ou abandono, etc. A história de cada pessoa é o que faz com que ela seja quem é. Negar, rejeitar ou desqualificar essa história, ainda que implicitamente, faz com que a criança se sinta diminuída, rejeitada e fraca. Essa pode ser a origem de muitos problemas enfrentados por crianças e adolescentes nessas condições – desde dificuldades de rendimento na escola até atos de revolta contra a própria família adotiva e envolvimento com drogas e violência. E quando a família substituta acolhe no coração, junto com a criança, toda a origem que esta traz consigo, a criança se sente acolhida por inteiro. As dificuldades que passou podem ser assimiladas com dignidade, convertendo-se em força e segurança. A consequência natural disso é o respeito e a gratidão aos pais de criação. ____________________________________________________________ Na vivência realizada em 10 de julho de 2014, estiveram presentes no total 107 pessoas. Destas, 47 têm envolvimento em processos judiciais da área de infância e juventude relativos a atos infracionais praticados por adolescentes (incluindo os próprios adolescentes, as vítimas e familiares); e 13 são parte em processos de adoção ou guarda. Contamos também com a presença de 26 pessoas convidadas, incluindo o Juiz da Vara Cível de Amargosa, Dr. Alberto Fernando Salles de Jesus, o Comandante da 2ª Cia. da Polícia Militar em Amargosa, Cap. Alex Rego, psicólogas, assistentes sociais, membros do Poder Público, advogados e serventuários da Justiça. Além destes, 13 voluntários do Projeto “Família, A Base da Vida” (de iniciativa do Dr. Alberto Salles) deram importante auxílio na organização e participaram ativamente das constelações, inclusive como representantes das famílias nos exercícios realizados.

 

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Voluntários do Projeto “Família, a Base da Vida”