A Responsabilidade em Constelar - (Jakob Schneider)

12. 05. 29
Acessos: 1665
Este artigo foi escrito por Em razão da euforia fundada na profundidade das vivências e na densidade humana de muitas constelações, muitos consteladores correm o risco de se descuidar, justificando as críticas. O que nos ajuda para trabalhar responsavelmente com constelações familiares?
 
O cuidado significa aqui agir com sobriedade e clareza, correção e plausibilidade. Além da atitude e da reserva fenomenológica, constantemente aconselhada, precisamos nos direcionar para a vida comum. Não se trata de direcionar os clientes ou suas famílias a um padrão único, de acordo com nossas concepções, mas de colaborar para que o que é "maior", seja o que for, possa atuar como incentivo e solução no dia-a-dia do cliente. O milagre não está na unidade do múltiplo, mas na multiplicidade do uno.
 
Toda a sabedoria é inútil quando não se refere a situações individuais ou coletivas. Por mais que encaremos a alma humana como uma espécie de "campo", ela não deixa de abranger pessoas individuais. Ela só existe e se mostra através de indivíduos. Por mais que os movimentos sistêmicos permaneçam no primeiro plano das constelações, eles não existem sem os indivíduos num sistema, isto é, sem a mãe prematuramente falecida, sem o avô suicida, sem o cliente com sua necessidade ou doença. "You cannot kiss a system". Para corresponder realmente à necessidade do cliente, a atenção do terapeuta deve realmente passar através de seu sistema de relações, porém sem perder de vista o cliente e suas necessidades concretas, e absolutamente sem feri-lo.
 
No tocante aos efeitos externos do trabalho das constelações, recomenda-se considerar os seguintes aspectos:
 
Quem oferece constelações como psicoterapia também precisa possuir habilitação legal para a prática da psicoterapia. Quem não a possui não deve despertar a impressão de praticar terapia, nem atender a expectativas terapêuticas no sentido tradicional e legal. Precisa limitar-se ao aconselhamento, que até agora - felizmente - não foi regulamentado. Naturalmente, no trabalho concreto fica difícil definir os limites entre psicoterapia e aconselhamento, entre curar e aconselhar.
 
Seguramente não se justifica enaltecer a constelação familiar como o único método capaz de resolver tudo e trazer felicidade. Por mais liberador e saudável que seja seu efeito para a alma, ela não produz redenção nem salvação. Por mais espiritual ou religiosa que possa ser, ela não é uma religião. O êxito de um método tende a colocá-lo em evidência, em lugar da intenção ou da necessidade do cliente, ao qual o método serve. Muitos clientes preferem fazer uma constelação a descrever seu problema, seja ele uma briga entre irmãos, um conflito conjugal, a busca do lugar certo em sua vida ou o risco de suicídio de um filho. Mas a participação numa constelação não significa por si só uma receita de sucesso.
 
O "mais" do trabalho das constelações é em muitas situações também um "menos". Por exemplo, a constelação familiar não substitui o tratamento psiquiátrico, embora freqüentemente seja útil para famílias onde se manifesta um comportamento psicótico. Não substitui o tratamento médico em casos de doenças. Não substitui o atendimento social, com as decisões de sua competência. Não substitui todas as instituições que se dedicam a intervenções em casos de crises. Nem substitui os métodos de ajuda à alma, quando alguém precisa apreender o que necessita para o domínio de sua vida e que, pelas circunstancias de sua história, ainda não aprendeu. As constelações não são úteis para mudanças de personalidade, embora possam interferir profundamente no processo de crescimento da pessoa. Elas não substituem o treinamento ou a disciplina espiritual, quando alguém quer se desenvolver nesse sentido. E não substituem os domínios da experiência quotidiana dos clientes a que servem, mesmo que possam proporciona r-Ihes luzes extraordinárias.
 
O cuidado no trabalho com constelações também envolve a aprendizagem. Nesse particular, muito se discute nos círculos de consteladores sobre o que é necessário aprender para dirigilas. Até o momento pertence a cada um testar-se para sentir se está pronto e capaz de assumir a responsabilidade por esse trabalho. Note-se que a atitude fenomenológica que abre mão do saber só tem significado para aquele que sabe algo. Ela não significa "sem capacidade", "sem experiência" ou "sem competência". A atitude de agir "sem medo" não significa ausência de respeito pelas forças com que temos de lidar nas constelações. A atitude de atuar "sem intenção" não significa que nos deixemos arrastar nas constelações pela arbitrariedade e pelo acaso. E o atuar "sem amor" se refere ao domínio da transferência e da contra-transferência, e não significa falta de amorosidade.
 
Também de nós, consteladores, continua exigindo um constante esforço assumir cada pessoa, cada família, cada sistema, cada realidade como ela é, de modo que também o cliente possa reconhecer mais facilmente o que necessita para a solução de seus problemas e para o seu próprio crescimento.