Constelações Sistêmicas: Fenomenológicas ou Estruturais? (Walther Hermann e Viviani Bovo)

12. 05. 29
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Sinopse
 
Texto breve que busca diferenciar e explicar as diferentes linhagens das Constelações Sistêmicas, um importante método de solução de problemas e desarticulação de padrões de comportamento inconscientes cuja grande fama foi difundida pelo alemão Bert Hellinger e suas contribuições.
 
As três linhagens principais discutidas nesse texto são as Constelações Sistêmicas Fenomenológicas, as Constelações Sistêmicas Estruturais ou Construtivistas e as Constelações Sistêmicas Organizacionais, ocasionalmente conhecidas também como Coaching Sistêmico.
 
Contexto
 
Esse artigo nasceu de um empreendimento de buscar explicar de forma clara as sutis distinções entre as abordagens das Constelações Sistêmicas para uma profissional de organização de eventos que desejava informações mais precisas para saber explicar as diferenças para seus clientes. Assim, o texto original foi gerado em três momentos, de acordo com as interações entre promotora de eventos e nós, nesse caso os especialistas no assunto, até conseguir sua satisfação completa em relação ao tema. Evidentemente, a primeira resposta não foi satisfatória, razão da existência de mais duas respostas complementares. Isso será representado no texto como fases um, dois e três.
 
O método das Constelações Sistêmicas se popularizaram rapidamente no mundo provavelmente graças a uma grande quantidade de trabalhos bem sucedidos e resultados duradouros obtidos por pessoas que dedicavam-se a buscar soluções para suas incertezas, depressões, conflitos e medos entre vários outros problemas comuns de nossa civilização, em distintas abordagens terapêuticas que, muitas vezes, levavam anos e não garantiam resultados palpáveis.
 
Conhecida atualmente como um método de diagnóstico de motivações inconscientes e de solução de problemas e conflitos humanos, as Constelações Sistêmicas diversificaram-se em distintas linhagens a partir das origens e bagagens profissionais de seus praticantes.
 
Há pelo menos três abordagens cujas distinções são úteis para o leigo saber escolher qual delas pode ser a mais adequada para sua necessidade, embora alguns profissionais da área acumulem as competências de utilizar qualquer uma delas, de acordo com suas avaliações de cada caso.
 
Texto
 
1ª fase
 
As Constelações Sistêmicas Fenomenológicas constituem uma abordagem terapêutica sistematizada pelo alemão Bert Hellinger a partir de vários métodos de intervenção terapêutica familiar (a princípio). Gunthard Weber tomou tal abordagem e iniciou o trabalho com empresas, obtendo um grande sucesso em resultados e soluções para problemas organizacionais.
 
A abordagem familiar busca equacionar conflitos e desarticular padrões que se cristalizam nas famílias devido a uma série de acontecimentos que geram dor, ressentimentos, mágoas e exclusões, principalmente através da identificação de tais tensões inconscientes (diagnóstico, como era no princípio) e solução (revelando verdades, busca-se apresentar para o cliente um novo quadro possível da realidade no qual tais tensões sejam dissolvidas).
 
É uma abordagem que, em alguma instância, parece xamânica, pois não existem regras nem técnicas muito evidentes para o iniciante que presencia ou toma parte numa intervenção com representantes! Há uma crença importante que norteia a percepção do profissional de constelações: todos os males provêm de movimentos de amor! Aqui diferenciam-se dois tipos de amor: o amor infantil, imaturo, que pode criar a doença e o amor adulto, maduro, que pode trazer a cura! Como a estrutura dos vínculos humanos é bem anterior aos modelos sociais ou à compreensão, muitas intervenções fogem completamente do entendimento... Isto é, as Constelações Sistêmicas Fenomenológicas lidam, muitas vezes, com conteúdos biológicos, simbólicos, emocionais e psicológicos humanos tão antigos que as nossas regras culturais e modelos sociais nem sempre alcançam tal realidade.
 
Caso utilizemos modelos sociais ou paradigmas culturais para tais investigações, frequentemente estaremos subordinando os sentimentos humanos a modelos de compreensão dos comportamentos humanos - as constelações tem o objetivo de revelar as soluções mais adequadas na dimensão dos sentimentos, e não na razão ou na compreensão do certo e do errado, que frequentemente são fatores que patrocinam as exclusões, os preconceitos, as vinganças e tantos outros comportamentos humanos hostis. Frequentemente, por isso, uma intervenção na abordagem fenomenológica pode revelar soluções pouco compreensíveis para a razão e propor ações simples, às vezes, acessíveis apenas à intuição. Ignorar os movimentos observados numa constelação por falta de compreensão intelectual pode afastar a possibilidade de encontrar soluções para problemas humanos cujas origens estejam em épocas ou práticas culturais ancestrais.
 
Portanto, na abordagem fenomenológica, qualquer idéia preconcebida que façamos de uma determinada intervenção ou diagnóstico pode interferir ou inibir o processo de cura ou solução de tal caso. Isso está de acordo com as doutrinas filosóficas derivadas de descobertas científicas do século XX: a presença do observador altera os resultados obtidos. Por isso, um constelador deve ter um treinamento consistente em não criar ou não se apegar a concepções ou modelos de intervenção, já que cada caso é um caso, completamente diferente – a solução para um tipo de sintoma ou problema será provavelmente diferente para pessoas diferentes com o mesmo sintoma. Sua postura deve ser, todo tempo, de NÃO SABER. A IGNORÂNCIA praticada deliberadamente é uma forma de estar disponível para identificar e reconhecer os movimentos e tendências espontâneas do sistema quando colocado numa constelação.
 
Essa atitude é fundamental para que o sistema seja devidamente respeitado em sua sabedoria e equilíbrio, e esteja disposto e disponível para permitir alguma intervenção, caso contrário as coisas não acontecem. O silêncio do constelador é muito comum nessa abordagem na qual evita-se interpretações tanto quanto possível! Num sentido positivo, esse estilo é quase uma ‘religião’, na qual desenvolve-se uma fé e confiança inabaláveis na inteligência do sistema familiar do cliente. Também não é possível prever o tempo de duração de uma intervenção nesse estilo. Essa foi a origem do trabalho: o “NÃO SABER” e a postura de estar disponível para o que acontecer, sem o constelador cultivar intenção alguma, exceto sua disposição de estar presente e à serviço das informações que são reveladas pela movimentação espontânea dos representantes.
 
A abordagem fenomenológica é, portanto, uma forma de adentrarmos um universo de fenômenos cujo intelecto não é capaz de alcançar, pois inclui realidades que a mente ainda não percebe ou não conhece. Assim a solução nem sempre é um final feliz, sendo que uma intervenção pode terminar ainda com tensão e desconforto, cujo objetivo é COLOCAR MOVIMENTO em conteúdos que estiveram "congelados" anteriormente, confiando-se no processo criativo do cliente que pode, graças a isso, levá-lo a soluções, transformações e descobertas bem além do intelecto. Essa abordagem, curiosamente, é ainda repleta de coincidências e sincronicidades, conforme uma abordagem xamânica (a origem das observações iniciais dessa abordagem foi em culturas tradicionais de cura africanas que pareciam lidar muito bem com males que assolam as culturas “civilizadas” ocidentais).
 
Bem, essa foi a origem...
 
Entretanto, uma abordagem como essas não é fácil de ser ensinada. Muitos observadores do processo começaram a catalogar os métodos de intervenção mais comuns e a classificar padrões de problemas, buscando identificar "fórmulas" de solução. Esse maravilhoso trabalho intelectual baseado na abordagem nua e crua da realidade (abordagem fenomenológica) deu origem a um modelo de intervenção construtivista, possível de ser ensinado por ser estruturado. Esse novo modelo, mais simples e racional, é chamado de Constelações Estruturais ou Construtivistas.
 
De uma forma grosseira, esse modelo mental das constelações poderia ser mapeado num fluxograma ou num conjunto de regras e idéias a respeito dos padrões de problemas e soluções (há frases prontas já estudadas pelo seu poder de solucionar determinados tipos de tensões, essas frases encerram basicamente estratégias e significados úteis para o alívio de tensões inconscientes). Como todas as fórmulas e modelos, a abordagem estrutural tornou o trabalho muito mais inteligível e permitiu que ele se expandisse, além de ser uma maravilhosa ‘carta na manga’ de consteladores de qualquer linhagem. Porém, em nossa opinião, essa linhagem não alcança a mesma profundidade do método fenomenológico que, atualmente, em seus desdobramentos mais avançados, deu origem a intervenções multidimensionais, isto é, a possibilidade de solução de problemas em múltiplos níveis em uma única intervenção. Seria difícil explicar isso em menos de dois volumes, mas podemos bem simplificadamente entender isso como a possibilidade de determinados padrões de problemas não estarem estruturados apenas no âmbito pessoal ou familiar, mas na dimensão coletiva de famílias, empresas, comunidades, grupos étnicos ou, mesmo, a raça humana – é mais fácil compreender isso a partir dos modelos de Rupert Sheldrake dos Campos Morfogenéticos e da teoria dos Fractais.
 
As empresas são construções da mente humana, portanto os modelos organizacionais seguem determinadas normas e estão sujeitos a códigos culturais determinados. Dessa forma podem ser constelados tanto quanto qualquer outra força ou motivação humana. As constelações organizacionais constituem um campo de aplicação dos métodos de solução de problemas das Constelações Sistêmicas Fenomenológicas ou Estruturais Construtivistas por serem empreendimentos humanos.
 
Desde que as empresas são produtos da mente humana, embora com um grau de complexidade bem menor que as experiências biológicas, emocionais ou psicológicas da vida humana, elas também têm seus padrões decodificados em termos dos modelos de gestão de negócios, universo de experiência no qual as constelações estruturais alcançaram muito sucesso no diagnóstico de dinâmicas motivacionais inconscientes e solução de tais problemas. Há, porém, um limite no qual uma intervenção organizacional chega aos padrões de comportamento de seus gestores ou líderes, levando o trabalho, não raro, a uma possibilidade de intervenção familiar, especialmente nas organizações com origem em negócios familiares.
 
2ª fase
 
Constelação Familiar é um método de intervenção terapêutica brevíssima para solucionar tensões inconscientes e reformular hábitos de pensamento que estejam interferindo no organismo do cliente ou gerando padrões de comportamento indesejados.
 
O método das constelações familiares possui estilos diferentes, em especial a abordagem fenomenológica (mais profunda) e as abordagens estruturais ou construtivistas que incluem técnicas de solução de problemas provenientes da Hipnose, Programação Neurolinguística e das Terapias Focadas em Soluções.
 
As Constelações Organizacionais utilizam-se dos mesmos métodos das Constelações Estruturais, porém adequando-os ao contexto organizacional como ambiente para a busca de soluções de negócios, relacionamentos profissionais ou com o mercado. Via de regra, as Constelações Organizacionais são uma poderosa abordagem de diagnóstico de problemas ou tensões não reveladas na comunicação formal e, dessa forma, servem para investigar soluções potenciais nas estratégias das organizações ou no comportamento humano coletivo.
 
Em negócios familiares, frequentemente as soluções organizacionais desembocam em questões de origem familiar, cabendo ao constelador e/ou ao cliente a decisão de continuação ou não do trabalho que poderá se encaminhar para uma constelação familiar.
 
3ª fase
 
A semelhança entre as DUAS (fenomenológicas e estruturais) é que ambas são métodos brevíssimos de intervenção de diagnóstico e solução de problemas em sistemas ou grupos humanos. Ambas têm recursos para identificar dinâmicas inconscientes e motivações profundas das pessoas e intervir nelas de modo a revelar a verdade da ‘agenda oculta’.
 
A diferença entre as constelações familiares e as organizacionais é que a primeira é destinada a solução de problemas pessoais ou de relacionamento humano enquanto a segunda é destinada ao diagnóstico e solução de problemas profissionais e de negócios, em empresas ou grandes organizações. Ou seja, a primeira é mais destinada a consultórios e terapeutas e a segunda é útil para consultores e empresários.
 
As diferenças entre as abordagens Fenomenológica e Estrutural ou Construtivista estão principalmente nas posturas dos profissionais que usam tais abordagens: para os primeiros há um grande e demorado trabalho de descondicionamento e de cultivo da atitude de IGNORÂNCIA, de NÃO JULGAMENTO e de disponibilidade para estar presente durante uma intervenção sem intenção alguma, colocando-se a serviço do sistema do cliente para encontrar as soluções que o próprio sistema possa revelar; para os seguintes, há uma série de métodos a serem aprendidos que podem ajudá-los a fazer intervenções determinadas para alcançar resultados específicos concebidos pelo cliente e pelo constelador como soluções para o sistema. Nas Constelações Estruturais é comum que o constelador faça mais intervenções. Nas Constelações Fenomenológicas admite-se que quanto menos intervenções forem feitas, há mais respeito pela inteligência e sabedoria do sistema.
 
Mas enfim, o que é essa inteligência do sistema? Ninguém tem uma resposta clara para isso ainda, mas é uma compreensão que se conforma quanto mais prática temos com o método: algo que podemos observar nos movimentos espontâneos identificados nas constelações com representantes que parece mostrar uma tendência ao restabelecimento dos vínculos de amor, pertencimento e ordem nos quais a compreensão social de certo e errado pouco contribuem.
 
Conclusão
Apesar de ser uma abordagem muito jovem, cuja utilização maciça começou na década de 80, as constelações sistêmicas familiares e organizacionais continuam em evolução e pesquisa, provavelmente devido ao fato de não haverem teorias consistentes que expliquem satisfatoriamente os fenômenos observados nas intervenções práticas.
 
Talvez essa também seja a razão de, em tão pouco tempo, ser possível a existência de distintas linhagens. Na prática ainda podemos observar a existência de vários profissionais que adaptaram modelos teóricos oriundos de outras áreas para validarem as observações e adaptarem o método aos seus próprios paradigmas. Isso é possível pois, na tentativa de compreender e explicar os fenômenos, o campo ainda está aberto para contribuições que possam promover o seu desenvolvimento.
 
Creio que o conhecimento atual tenha alcançado um ponto em que coletivamente sejamos capazes de ir muito mais longe do que individualmente. Assim, muitos dos maiores pensadores divulgam suas descobertas muito cedo, sabendo que outras pessoas poderão acelerar o desenvolvimento de suas idéias a partir de suas contribuições.
 
O grande benefício fica para a Humanidade!