O Destino - (Jakob Schneider)

12. 05. 29
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A compreensão de nosso destino e o assentimento a ele estão no cerne do trabalho das constelações. Chamamos de destino as forças que, vindas do passado, nos ligam inelutavelmente ao efeito bom ou funesto de certos eventos. O efeito dos acontecimentos nos é imposto, quer o queiramos ou não, e não temos a possibilidade de interferir nele.
 
A força do destino se revela, em relação a acontecimentos traumáticos numa família, de uma forma às vezes inquietante. Nas constelações experimentamos constantemente, e de modo impressionante, que somos muito pouco livres e reeditamos em própria vida, sem o saber nem querer, destinos passados e acontecimentos dolorosos, numa espécie de compulsão repetitiva. O efeito maior das constelações consiste em nos fazer perceber como, sem necessidades próprias, revivemos necessidades passadas e não aquietadas de outras pessoas, como se o que passou tivesse de ficar em paz e se tornar definitivamente passado. Este é o pão habitual do trabalho com constelações.
 
A concordância com a ligação ao destino significa por acaso fatalismo? De maneira nenhuma. Pelo contrário. É verdade que a configuração de nossa vida pelos destinos anteriores não pode ser anulada, mas para o futuro nos tornamos mais livres através do que se mostra nas constelações. Então o destino alheio poderá ser de algum modo exteriorizado, tornando-se uma interface à qual já não estamos cegamente entregues. Pois a alma não liga indissoluvelmente a destinos, ela nos libera deles através de um insight, de um movimento próprio inconsciente ou, às vezes, de um modo totalmente casual (com ou sem constelação).
 
Numa época em que às vezes julgamos que nossa vida esta completamente em nossas mãos - uma ilusão de muitos individualistas -, o reconhecimento do destino e o assentimento à ligação com o destino próprio e alheio constitui um desafio. Tanto nos acostumamos à idéia de uma livre razão e de uma autonomia individual que nos recusamos a reconhecer o que em épocas passadas foi descrito como daimonía e eudaimonía - a triste sina e a felicidade presenteada. O trabalho das constelações é seguramente uma afronta a uma psicoterapia que valoriza acima de tudo a autonomia e a emancipação individual e considera a humildade como uma submissão. Porém basta ler jornais e romances para perceber como atua o destino e como o nosso poder e a nossa impotência partilham a realidade.
 
Muitas pessoas sentem, instintivamente, como um processo benéfico a reverência diante do destino ou diante de pessoas a que somos ligados pelo destino. Uma reverência autêntica é quase sempre experimentada por nós como solução e liberação. Quem precisa se curvar não é a criança pequena, mas o adulto. E a reverência abarca vários processos: o ato de curvar-se, o deixar que algo morra, e o ato de erguer-se. Bem longe de ser um processo humilhante, a reverência exige coragem. Ela proporciona força, alívio da respiração e abertura de espaço.
 
O destino, como força que inelutavelmente dispõe, não faz caso de nossa vontade: ele a toma de roldão, sem esperar o nosso consentimento. O destino não é uma pessoa, embora freqüentemente seja representado por uma pessoa nas constelações. É um acontecimento direcionado a partir do passado, um movimento que nos liga, através da alma, à realidade maior. Quantas vezes os clientes falam de sua luta para não se tornarem iguais a seu pai ou a sua mãe, e quantas vezes acrescentam que essa luta resultou em fracasso! Quantos clientes quiseram fazer melhor que seus pais, e quantos confessam que não o conseguiram! Um dos paradoxos da vida humana é que a luta contra o destino nos liga ainda mais a ele, e o assentimento ao destino nos torna mais livres. É como um redemoinho num rio. Quem luta contra a sua sucção é puxado ainda mais para o interior, e quem sem pânico se entrega à sua força é muitas vezes impelido para fora.
 
Reconhecimento do destino não significa entregar-se à doença sem vontade e com resignação. Significa acompanhá-la com as forças do corpo e da alma. Então, como num redemoinho, elas são de novo liberadas da atração da doença ou da morte. Aqui muitas vezes faz sentido perguntar: O que há na doença que quer curar? Naturalmente, o doente precisa de apoio externo. E muitas constelações ajudam pessoas enfermas a se confiarem aos serviços médicos. Mas as constelações também as fazem confrontar-se com a morte. Uma senhora, gravemente doente de câncer, procurava saber através de uma constelação as causas de sua doença. O representante da morte, colocado diante dela, olhou-a com carinho, colocou-se ao lado dela e abraçou-a pelo ombro. Ela se defendeu com lágrimas, mas o representante da morte não cedeu. Dois anos depois, essa senhora escreveu ao terapeuta: "Eu me defendi muito contra a morte, e finalmente a aceitei. Agora ela está a meu lado já há algum tempo, e estou viva". Mas também existe o movimento oposto. Outra mulher com câncer em estado grave, que se sentia fortemente atraída a seguir na morte seu pai, enredado em grave culpa, pediu ao terapeuta que se esforçava por desprendê-la da morte: "For favor, deixe-me ir para meu pai!" Ela se deitou junto do representante do pai, estreitou-o nos braços, sorriu para ele com amor entre lágrimas, até que se acalmou completamente. Na continuação do grupo ela atuou com alegria e energia e colocou muitas questões práticas sobre seu comportamento em relação ao marido e aos filhos. Notou-se que ela se preparava para sua morte. Que vontade terapêutica teria aqui a força e o direito de se opor à sua morte?