Quando as Histórias Curam - (Bert Hellinger)

12. 05. 29
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Mundialmente conhecido pela criação da abordagem terapêutica “Constelações Familiares”, Bert Hellinger explica neste texto um aspecto fascinante de suas intervenções terapêuticas: histórias surpreendentes para o intelecto, destinadas a ressoar na alma do paciente. (Extraído do livro “Felicidade Dual”)
 
A FILHA PEQUENA QUE PADECIA DE ENURESE NOTURNA
 
 Há pouco tempo alguém da TV austríaca me entrevistou e me pediu que dissesse algo acerca de histórias que curam. Centrei-me no prático, falando das possibilidades de ajudar crianças através de histórias. Sobre a pergunta do que poderia ser feito no caso de enurese noturna (crianças que urinam na cama à noite), contei o seguinte caso.
 Um pai me perguntou o que poderia fazer com sua filha pequena que de noite fazia pipi na cama. Aconselhei-o que dissesse à filha que havia se casado com muito gosto com sua mãe (a filha havia nascido antes que os pais se casassem). E que o dissesse de passagem e que, além do mais, lhe contasse histórias com pequenas variações. Por exemplo, a do Chapeuzinho Vermelho:
 Chapeuzinho chega à casa da avó e vê que o telhado da varanda tem uma goteira. Ela então vai ao celeiro e pega uma madeira para fechar o buraco do teto, para que pare de molhar a entrada. Depois entra na casa da avó...
 Outro, o conto da Branca de Neve.
 Um dos anões diz que em sua casa há uma goteira e Branca de Neve promete consertá-la. Como o teto era baixo, ela vê que é somente uma telha que saiu do lugar e a põe no lugar. O anãozinho nem se dá conta do que aconteceu, mas tudo passa a ficar em ordem...
 Ou a história em que uma torneira goteja e ela não a fecha. Ou de uma menina que está no banheiro. De repente se abre a porta e um desconhecido aparece. Ela fecha a porta rapidamente e volta a respirar aliviada. (Dá para ver o transtorno hiponoterapêutico? Ao entrar o desconhecido a menina contrai o esfíncter. Esta é uma intervenção muito conhecida de Erickson).
 Ao fim de seis meses, o pai voltou a uma supervisão e me contou sua experiência. Disse que a história havia surtido um efeito imediato: tudo havia se arranjado. O que lhe chamou a atenção é que esta filha pequena normalmente protestava se ele introduzia variações nos contos, mas estas modificações ela aceitou tranquilamente.
 Isto diz algo dos métodos psicoterapêuticos. Da maneira como foi feito, o pai respeitou profundamente a filha e esta, ao sentir que era respeitada, não tinha nenhuma necessidade de defender-se. Não havia nenhuma submissão. Tudo se fez por puro amor, e nesse âmbito de confiança aconteceu algo que depois resultou no que foi comentado.
 Este é o marco no qual se faz possível uma cura. Se, ao contrário, eu digo a alguém: “Tens que fazer desta forma ou de outra” aquele primeiramente é perdedor e a sua dignidade o obriga a rechaçar o proposto. Mas tendo-se métodos nos quais esta atitude não entra em jogo, como neste caso das histórias, o outro só escuta a história sem dar-se conta de que sou eu que estou contando. Assim, ele mesmo pode tirar da história os estímulos adequados e encontrar a solução. Desta maneira, já não tem que deter-se em mim, senão que pode esquecer-se de mim. É igual no cinema: ali também nos esquecemos dos que manejam os projetores; olhamos o filme e depois voltamos a sair. O mesmo fazem os pacientes e a isto chamamos psicoterapia.
 Se a alguém lhe ocorre algo a respeito de outra pessoa, algo que lhe queira dizer, olhe ao interessado para comprovar se aquela idéia o nutre e se serve a ele, ou se o perturba ou debilita. A percepção não é um acontecimento que possa ser buscado. Quando me exponho a alguém, a percepção aparece como um relâmpago e o resultado é absolutamente surpreendente. Não se trata de algo que eu possa inventar-me. Às vezes me dá medo. Se num caso assim me retiro, se rompe algo em minha própria alma. Queria expressar outra vez numa história; nela a mensagem está cifrada, mas indica um caminho. Esta é uma história de epistemologia psicoterapêutica. Em seguida outra, “O Circulo”.
 
A MEDIDA
 
 Um erudito perguntou a um sábio como os detalhes se reuniam para formar um todo, e como o conhecimento do diverso se diferenciava do conhecimento da plenitude.
 O sábio disse: “O disperso se converte em um todo se consegue encontrar um centro e atuar centrado, já que somente através de um centro o diverso se faz essencial e real; sua plenitude, porém, nos parece simples, quase pouca coisa, como uma força tranquila dirigida ao próximo, permanecendo abaixo e perto daquilo que a sustenta. Para experimentar ou transmitir a plenitude, portanto, não necessito saber nem dizer nem ter nem fazer tudo, um a um. O que chega à cidade entra por um único portal. O que toca uma campainha uma vez, com só este tom faz soar a muitos outros. E o que pega a maçã madura não necessita averiguar sua origem: ela a tem em sua mão e come”.
 O erudito objetou que ele que queria a verdade, também tinha que saber todo os detalhes. Mas o sábio o contestou. “Tão somente da verdade antiga se sabia muito. A verdade que conduzia mais além era arriscada e nova, já que, como uma semente ocultava a árvore, ela escondia o seu final. Portanto, o que vacila para agir, porque precisa saber mais do que o passo seguinte lhe permite ver, perde o que é efetivo. Toma a moeda ao invés da mercadoria, e das árvores faz madeira”.
 
O CÍRCULO
 
 Uma pessoa confusa perguntou a alguém que a acompanhava por um trecho do caminho:
 “Diga-me: o que conta para nós?”. O outro lhe respondeu: “O que conta é, em primeiro lugar, que temos vida por algum tempo”. Assim, quando ela começa, já havia muitas coisas e quando cessa, ela cai na multiplicidade que havia antes. Quando um círculo se fecha, o fim e o princípio se tornam um só e a mesma coisa.
 Assim, o que vem depois de nossa vida se liga, sem costura, ao que havia antes, como se, entre ambos, nenhum tempo tivesse transcorrido. Assim, só temos o tempo agora.
 O que conta é, em seguida, que, junto com o tempo, escapa de nós o que nele produzimos, como se pertencesse a um outro tempo e como se, enquanto pensamos estar agindo fôssemos mantidos como simples instrumentos, utilizados para algo além de nós, e postos de lado outra vez. “Quando somos dispensados, nos consumamos”.
 A pessoa confusa pergunto: “Se nós e o que produzimos duramos um tempo e acabamos, o que conta quando nosso tempo se encerra”?
 O outro respondeu: “O que conta é o antes e o depois, como uma coisa só”.
 Então apartaram seus caminhos e seus tempos, e ambos se detiveram e refletiram.